03 dezembro 2007

......

"Esse negro corcel, cujas passadas
Escuto em sonhos, quando a sombra desce,
E, passando a galope, me aparece
Da noite nas fantásticas estradas,
Donde vem ele? Que regiões sagradas
E terríveis cruzou, que assim parece
Tenebroso e sublime, e lhe estremece
Não sei que horror nas crinas agitadas?
Um cavaleiro de expressão potente,
Formidável, mas plácido, no porte,
Vestido de armadura reluzente,
Cavalga a fera estranha sem temor:
E o corcel negro diz: "Eu sou a Morte!"
Responde o cavaleiro: "Eu sou o Amor!""



- Antero de Quental -
(Mors-Amor)

21 novembro 2007

"De onde me chegam estas palavras?
Nunca houve palavras para gritar a tua ausência
Apenas o coração
Pulsando a solidão antes de ti
Quando o teu rosto dóia no meu rosto
E eu descobri as minhas mãos sem as tuas
E os teus olhos não eram mais
que um lugar escondido onde a primavera
refaz o seu vestido de corolas.
E não havia um nome para a tua ausência.
Mas tu vieste.
Do coração da noite?
Dos braços da manhã?
Dos bosques do Outono?
Tu vieste.
E acordas todas as horas.
Preenches todos os minutos.
acendes todas as fogueiras
escreves todas as palavras.
Um canto de alegria desprende-se dos meus dedos
quando toco o teu corpo e habito em ti
e a noite não existe
porque as nossas bocas acendem na madrugada
uma aurora de beijos.
Oh, meu amor,
doem-me os braços de te abraçar,
trago as mãos acesas,
a boca desfeita
e a solidão acorda em mim um grito de silêncio quando
o medo de perder-te é um corcel que pisa os meus cabelos
e se perde depois numa estrada deserta
por onde caminhas nua."



- Joaquim Pessoa -

07 outubro 2007

Enchanted... Again!

"Moving forward using all my breath
Making love to you was never second best
I saw the world thrashing all around your face
Never really knowing it was always mesh and lace
I'll stop the world and melt with you
You've seen the difference and it's getting better all the time
There's nothing you and I won't do
I'll stop the world and melt with you (...)
The future's open wide (...)"
- Modern English -

03 outubro 2007

[Thee] Prince of Darkness

Siderada no limiar entre a fantasia e a realidade, doía tanto desejo! Era a demência da alma aninhada no reencontro do conforto do corpo.
Porque, chegado da furtividade atrevida daquele momento, é a encarnação perfeita do conto de fadas original; esculpido do mais puro mármore, ostenta a vida na sua simples essência.
Porque existes! E, com mãos trémulas de sonhos abandonados, tacteei espectros de uma existência adormecida e, segura e lentamente, reencontrei-me nas coordenadas de ti.
Esmeraldas desenhadas a pastel... entrançaste o tempo e a loucura e, febril, já não discirno o sonho da realidade, já não percebo onde acabo e onde começas... plenitude existencial de quem não pode sentir mais, de quem não ousa pensar, de quem alcança o impossível.
Cubram-me os olhos e continuarei a ver-te com a nitidez inocente do olhar de uma criança; sem audição, continuarei a ouvir a respiração profunda e ousada que me embala as madrugadas; sem olfacto, continuarei a sentir cada partícula desse odor onde me perco e me encontro; sem paladar, sem tacto ....sem qualquer sentido, bastar-me-á fechar os olhos para, no silêncio da escuridão do meu desejo, sentir-te em cada poro de mim e percorrer-te lentamente no suave e arrebatador encantamento que nos une.
Por tudo isto, e tudo o que não ouso escrever...
Amo-te.

17 setembro 2007

Da Inocência

"A criança quando criança, caminhava de braços caídos, queria que o ribeiro fosse um rio, o rio uma torrente e este charco, o mar.
A criança quando criança, não sabia que era criança, tudo para ela tinha alma e todas as almas eram uma só. (...)
A criança quando criança, fazia perguntas como estas:
Porque é que eu sou eu e não tu?
Porque é que estou aqui e não ali?
Quando começou o tempo e onde acaba o espaço?
A vida sob o sol não é apenas um sonho?
Aquilo que vejo, ouço e cheiro não é apenas a aparência de um mundo antes do mundo?
Existe realmente o Mal e pessoas que são mesmo más?
É possível que eu, que sou eu, não o ter sido antes de ser, e de repente o eu que sou deixar de ser aquele que sou? (...)"





- Wim Wenders -
(As Asas do Desejo)

13 setembro 2007

......


"Eu sou bela, ó mortais!, como um sonho de pedra,
E o meu seio, onde todos vêm buscar a dor,
É feito para inspirar aos poetas um amor
Eterno e mudo que no ermo da matéria medra."



- Charles Baudelaire -
("A Beleza" - As Flores do Mal)

05 setembro 2007

Favole 01

"Se desejas ser meu, eu te farei mais feliz que o próprio Deus no seu paraíso. Os anjos invejar-te-ão. Rasga esse fúnebre sudário com o qual te pretendem envolver. Eu sou a beleza, a juventude e a vida: se vieres, seremos o amor."


- Théopile Gautier -
(Clarimonda, in: Favole, Victoria Francés)

27 agosto 2007

Enchanted

"I don’t believe in na interventionist God
But I know, darling, that you do
But I did I would kneel down and ask Him
Not to intervene when it came to you
Not to touch a hair on your head
To leave as you are
And if He felt He had to direct you
Then direct you into my arms (...)
And I don’t believe in the existence of angels
but looking at you I wonder if that’s true
But If I did would summon them together
And ask them to watch over you
To each burn a candle for you
To make bright and clear your path
And to walk, like Christ, in grace and love
And guide you into my arms (...)
But I believe in Love
And I know that you do too
And I believe in some kind of path
That we can walk down, me and you
So keep your candles burning
And make her journey bright and pure
That she will keep returning
Always and evermore (...)"
- Nick Cave and The Bad Seeds -
(Into My Arms)

06 agosto 2007

Flying...

"(...) Passou um anjo de rastos na serra da minha vida, (...) rasgou as asas na febre de me levar mais além, por esse amor que me teve, amei-o como a ninguém."


- Luís de Macedo -

30 julho 2007

Da liberdade

" "Vem por aqui" --- dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
--- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
--- Sei que não vou por aí."

- José Régio -

25 julho 2007

Despair

"Her eyes are grey.
Her hair is straggy and wet.
Her fingers are stubby.
The nails are chewed and broken.
Her teeth are crooked, jagged things.
There is a vacancy in her gaze, a feeling of absence when you are near her that is impossible to put into words.
Her sigil is the hooked ring.
One day her hook will catch your heart.
Describing her, we articulate what she is and why she is:
when hope is past, she is there.
She is in a thousand thousand waiting rooms and empty streets, in grey concrete buildings and anonymous hotels.
She is on the other side of every mirror.
When the eyes that look back you know you too well,
and no longer care for what they see, they are her eyes.
She stands and waits, and in her posture the pain no longer tells you to live, and in her presence joy is unimaginable. (...)
It is a peculiar, flat memory,
in which things become bleak and bounded by the dark.
There is joy in there,
of course,
and love,
and touching.
The presence that makes the
presence absence unbearable.
Without triumph,
without love,
without joy,
her work would be for nothing. (...)

To be Despair. It is a portrait.
Only close your eyes and feel."


- Neil Gaiman -
(The Sandman, Endless Nights)

21 julho 2007

Master of the Wind

"In the silence of the darkness
when all are fast asleep
I live inside a dream calling to your spirit
As a sail calls the wind, hear the angels sing

Far beyond the sun across the western sky
Reach into the blackness find a silver line

In a voice I whisper a candle in the night
Will carry all our dreams in a single dream of light (...)



Falling stars now light my way
My life was written on the wind
Clouds above, clouds below
High ascend the dream within

When the wind fills the sky the clouds will move aside
And there will be the road to all our dreams
And for any day that stings two better days it brings
Nothing is as bad as it seems


Close your eyes, look into the dream
Wins of change will winds of fortune bring


Fly away to a rainbow in the sky gold is at the end for each of us to find
There the road begins where another one will end
Here the four winds know who will break and who will bend
All to be the master of the wind."

- Manowar -
(Master of the Wind; The Triumph Of Steel, 1992)

18 julho 2007

23/9 [Shooting star]

Que me perdoem a demora, que me desculpem o atraso; apenas a real sede de viver torna latente o pensamento.

[Era uma vez]
Mutilados os relógios dos quais a vida escorria em espasmos monocórdicos, o tempo cristalizou sereno e eterno num qualquer conto de fadas tantas vezes pensado e deliberadamente evitado. Tempo, indiferente, aquoso e sem qualquer domínio no voo do peixe roxo... porque o animal estendeu as asas e dança, em descargas de luz, debaixo de uma chuva de cristal num sorriso perfeito de existir.
Porque a inocência surpreendeu o medo, a vontade fuzilou a incerteza, o desejo consumiu a distância... e a dor cedeu perante a vida, o desespero transformou-se na calma e a insegurança vai, lentamente, morrendo na plenitude encontrada na paz dos teus braços.
A lágrima de cristal reconstitui-se de esmeraldas e tudo começa a fazer sentido no não sentido do voo do unicórnio.
O pensamento surge ainda difuso e impede a expressão total de um sentir tão mais forte e veloz e que tão precocemente se predispôs em crer na realidade da ilusão.
E, impedida de continuar por um sorriso que teima em não morrer, do tanto que calo resta saber... passei a acreditar em estrelas cadentes, pelo menos nas que desmaiam na linha do horizonte de uma auto-estrada.

[E viveram felizes...]

07 julho 2007

... 'till...




03 julho 2007

Devaneio 1º

Correntes de fumo incolor naquela parede de lágrimas suadas onde relógios de sangue riem com sarcasmo do tempo que se esgota. Cada minuto um sorriso, cada minuto uma lágrima… na areia receosa e escassa prisioneira daquele vidro dourado, a alma vagueia em gritos de cor e de luz e a inocência brinca em rodas de mãos dadas com a dor.
Tempo perpétuo, constante… ironia de não existir tempo na incerteza mutilante… ambiguidade de ser, certeza de querer, paixão de vida, medo de morte… néon, esmeralda, marfim… ironia da concretização do sonho pelo risco de morte.
Os olhos eram a esperança encontrada, o sorriso a eternidade guardada e as mãos a segurança desejada!...mas as palavras evitadas reerguiam o gigante, o toque ausente animava a marioneta, a consciência era aquele pesado delírio que tudo poderia desmoronar e, o sono, furtivo e inevitável, trazia à lembrança o medo da abertura na ausência.
E o sentir! O peso de sentir o sonho, a esperança, a vida… preto, púrpura, branco… o sufocante sentir da plenitude ao cair da noite.
Tempo sem tempo… não existe tempo! Fechem a alma, tranquem o sangue! Enjaulem-se as feras e retome-se a segurança!
Mais um dia, mais uma noite… e ela ficou. Ficou como quem nunca receou o fim, viveu cada segundo roubado como a eterna verdade. Com a certeza da incerteza tatuada no peito, caminhou determinada e continua, livremente, ao possível encontro de uma morte anunciada.
Porque, se a verdade for mentira, nada faz sentido na verdadeira verdade.
Sim,… adoro-te.